14 de agosto de 2022

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MEMÓRIAS DE UM JOGADOR BRASILEIRO (1)

7 min read
Décio Abreu
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(por Décio Abreu – Parte 1 – para ver a parte 2 clique aqui)

Antes de tudo, quero deixar claro que o que vou escrever são memórias, algumas de fatos ocorridos há mais de 40 anos, portanto me perdoem se esquecer algo ou de alguém, ou mesmo se algum esquecimento fizer injustiça a alguém.

Também quero esclarecer que é um relato que evidentemente não pode cobrir tudo o que aconteceu.

Tentarei ser o mais fidedigno possível….

Comecei com o boliche em final de 1971, no “Meu Boliche”, que de fato não era meu, era apenas o nome da casa.

Na época, um dos garçons, Chico, e o Nelson, dono do Restaurante Pé de Vento, desafiaram a mim e ao meu companheiro das quartas-feiras, Ricardo, para uma disputa, valendo uma merreca.

Fomos gostando da brincadeira, até que, no final do ano, um velhinho, Sr. Mack, convidou-me para fazer parte da Equipe Pan Am na Liga Americana.

Aceitei e joguei os dois últimos meses do torneio de 1971.

Passei a saber que os americanos que trabalhavam no consulado (antiga embaixada) tinham uma liga agora enxertada de brasileiros.

Os torneios eram de quintetos, com handicap, equipes contra equipes em confronto direto, três linhas por noite.

No início, a liga ocupava as oito pistas às segundas e terças-feiras.

Soube também que tinha existido uma federação com muita gente jogando sem handicap, porém esta desapareceu, só restava a Liga dos Americanos com handicap.

A EQUIPE CARCARÁ

CARCARAWeb

Tinha a equipe do Brasas, com o O’D, Goodman, todos muito divertidos.

Conheci o maior jogador da época, o Toninho Carvalho, prova que treinar dá sorte.

Como o velhão era aplicado! Além do talento, mental game de primeira.

Admirei o Fernandão, alto, mas que possuía o estilo mais bonito, com muito alongamento.

O Dr .Ivan Cardoso, que parava com o pé direito, mas afiado.

A turma do Carcará, Felipe e Guido, e entre as mulheres a Marília, a Milena, a Mary, a Dirce e a Tininha se destacavam.

Comprei minha primeira bola, usada é claro, de borracha, já furada, polegar enorme, e tome bola nos pinos.

Os americanos que voltavam para os EUA vendiam suas bolas, era o único mercado local da época.

Como obtive bons resultados, o Paulo Carvalho e a Milena me convidaram para fazer parte da equipe deles, os Uirapurus.

E já me colocaram para fechar a equipe, e logo em 1972 me classifiquei bem no all events, o que me cativou definitivamente.

E as disputas eram difíceis, o torneio durava de março a novembro, três linhas por semana.

Em 1973 formamos a equipe Casa do Livro, com Milena, Paulo, Duda, Fernando Cysneiros, BrasilMarília e eu, e fomos bicampeões em 1973 e 1974.

Sim, tinha reservas que revezavam, quem jogasse mal saía e entrava outro.

Fiquei em 2.º lugar no all events nos dois anos, era duro bater o “velho” Toninho.

Vejam como as coisas mudaram, o “velho”, apelido do Toninho, tinha 44 anos…

Eu estava definitivamente fisgado.

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THE LEE EVAN TOURNAMENT OF THE AMERICAS

No início de 1974, o saudoso Rogério Colonna comentou comigo e com a Milena se gostaríamos de participar do Torneio das Américas, pois ele sempre recebia convite do próprio Lee Evans.

O Paulo se encarregou de formar uma delegação e começou convidando pela classificação do evento de 1973, pois nós não tínhamos federação, diretor técnico ou coisa parecida.

Ainda assim, foi respeitada a ordem pelo resultado na pista.

Nesta primeira viagem, o Toninho não quis ir, acabou chegando no Fernando Cysneiros, e nenhuma outra mulher quis ir.

E lá fomos nós os aventureiros, Milena, Fernando e eu, o Paulo foi como delegado.

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Choque geral!!! Lá encontramos um torneio organizado, super formal.

O hotel era grátis para os participantes, e os acompanhantes (esposas, filhos, etc) pagavam dois dólares por dia.

Refeições, camisas, pistas, bebidas nas festas (todo dia tinha uma), tudo grátis.

Tinha ainda um fotógrafo profissional que tirava fotos durante a semana sem que nós percebêssemos, e dois meses depois chegava um álbum pelo correio. Sensacional!!!

O local das disputas, o Cloverleaf tinha 50 pistas automáticas, um sonho.

Mas o choque mesmo foi ver os gringos e cucarachas jogando.

Que atrasados éramos!

Todos com bolas fingertip, giro, estilo, e nós, pau nos pinos, bolas todas furadas erradas, etc.

As bolas mais modernas eram de borracha, nem tinha de poliéster ainda.

Cada um furou uma bola no Bob White, e aí então começava uma mudança no boliche brasileiro.

Tivemos consciência que era possível melhorar, e muito.

Neste torneio, conheci os hermanos, muito simpáticos, e fizemos muita amizade.

O INÍCIO DAS MUDANÇAS NO BOLICHE BRASILEIRO

Em 1974, de volta ao Rio, depois do jogo, fui a um barzinho, o Zepelin, e lá estava o Walter Costa.

Ele me disse, como eu já havia ouvido várias vezes, que já tinha sido campeão de boliche.

Eu zoei, disse que com ele já conhecia 500 campeões de boliche, pois todo mundo dizia isto, e ele resolveu voltar a jogar porque ficou mordido.

Ele mesmo já comentou no Jornal do Boliche (que passarei a chamar de JB) sobre isto.

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Em 1975, os melhores colocados do ano anterior aceitaram viajar.

Fomos eu, o Toninho, a Milena e a Tininha.

Furamos novas bolas, ainda de borracha.

O Toninho furou uma de semi-finger e se adaptou bem.

Novamente a viagem serviu para aprendizado e estreitar relacionamentos.

Porém, ainda continuávamos sendo motivo até de zoação por parte de todos, inclusive dos equatorianos, peruanos e outros menos votados.

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Paralelamente, o Veiga e Toninho, patriarcas do esporte em São Paulo e no Rio, combinaram os primeiros eventos Rio-São Paulo.

A seleção paulista tinha craques como Kim (pai do Caco Cruz), o próprio Veiga, o Charles Simões, o Rochinha, o Feiciano Freire, o Hikari Kato.

Pelo Rio jogavam eu, o Toninho, o Walter, o Almir, o Felipe e o Guido.

O primeiro evento foi no Rio e nós vencemos.

No mês seguinte foi no Gran Boliche, em São Paulo, e os paulistas levaram a melhor.

Vejam só como eram as coisas, nós viajávamos para jogar apenas seis linhas, três no sábado e três no domingo.

E era ótimo, jogo somente entre equipes.

O Caco era um menino. Eu mesmo tinha apenas 23 anos, o Walter 22 e o Almir 25, vejam a diferença em relação a hoje.

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A ARGENTINA ENTRA NO CIRCUITO

Esta amizade que fizemos com os argentinos rendeu um torneio Brasil-Argentina em janeiro de 1976.

Os meus grande amigos Mac Laprida e o Chunny St Bonnet nos convidaram para ir a Buenos Aires, onde poderíamos aprender um pouco e furar bolas com o Ybanhez.

Fomos o Walter Costa, o Kim, o Edmundo, o Freire, o Hikari, o Bergallo, o Bernardo Brasil e eu.

Todos furaram suas bolas, eu resolvi furar uma de finger tip, e me dei bem, me adaptei super fácil, mas ninguém mais se aventurou.

Foi ótimo para todos os que foram, e para o boliche brasileiro, como veremos a seguir.

Em 1976, novamente os quatro classificados pelos resultados de 1975 viajaram para o Torneio das Américas.

Em Miami, os argentinos nos convidaram para participar do 1.º Campeonato Sul Americano, que seria realizado em Buenos Aires, em outubro ou novembro.

Ponderamos, Paulo e eu, que não tínhamos confederação, não poderíamos participar de um evento oficial sem as devidas formalidades.

O Tournament of Americas era, na época, um evento não oficial, apesar das dimensões e importância.

Ainda assim, por causa do relacionamento, eles nos aceitaram e então lá fomos nós de novo.

Paulo e eu organizamos a delegação, reservas de hotéis, passagens, etc.

Não era fácil naquela época, sem fax, DDI ou e-mail.

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O Rio-São Paulo ficou como evento anual, ida e volta, e os times da primeira divisão se repetiam, foram acrescentadas as divisões feminina e a segunda equipe masculina.

Em 1976, joguei o campeonato de equipes de São Paulo às quintas-feiras, No Rio era nas segundas e terças, pois trabalhei em Sampa meia semana, de quarta à sexta, neste ano.

Joguei no Cat Clube, junto com o Hikari. Ele e o Veiga eram os melhores paulistas, mas neste ano o japonês barbarizou, venceu fácil o all events e carregou a equipe ao título.

O histórico Gran Boliche tinha 20 pistas e ficava na Avenida Santo Amaro, a reposição dos pinos era manual através dos pin boys.

Voltando ao Sul Americano de 1976, acabei como chefe da delegação.

Novamente seguimos a lista do all events do RJ para formar a seleção: Ana Lygia, Vera Leal, Milena Carvalho, Helena Cacciola, Tininha Muelas e Maria Ilma Guerra pelas mulheres, e Walter Costa, Felipe Viana, Fernando Cysneiros, Almir Vasconcellos, Paulo Carvalho e Décio Abreu para a aventura.

Continua na parte 2 clique aqui)

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Décio Abreu é economista, empresário, casado com Helena, pai do Guilherme, Daniel e Bernardo.

Atualmente reside em Belo Horizonte, Minas Gerais.

No boliche já foi campeão carioca de equipes, clubes e individual, paulista de clubes, mineiro de clubes, duplas, tercetos e individual, brasileiro de tercetos, seleções, all events individual, sul americano.

Conquistou várias medalhas regionais, nacionais e internacionais, detentor de 22 recordes brasileiros e 3 sul americanos (individuais e coletivos).

Foi Presidente do World Bowling Writers de 1983 a 1987, editor do Jornal do Boliche de 1983 a 1992.

É proprietário e administrador da rede BOLIXE de centros de Boliche, Presidente da Federação Mineira de Boliche, cofundador pelo Brasil da Confederação Sul Americana de Boliche.

14 thoughts on “MEMÓRIAS DE UM JOGADOR BRASILEIRO (1)

  1. Parabéns pela formatação, Bira, ficou excelente, legendas nas fotos, acho que muitos vão se divertir e relembrar bons tempos e ótimas amizades. Não precisa repetir minha idade, sou super senior assumido… rsrsrs
    Obrigado.

  2. Gostei muito das calças boca-larga. E os cabelos? KKKKKKKKKKK
    Brincadeiras à parte, quero agradecer ao Décio (um amigo) e ao Bira,
    que sempre se empenham em dar continuidade ao esporte BOLICHE.
    PARABÉNS!!!

  3. Décio, sem palavras, fantástico!
    Fico emocionado só de pensar em meus velhos e meus tios
    jogando na época e formando uma paixão familiar
    que hoje eu faço questão de conduzir.
    Esperarei outros relatos.
    Abraço!

  4. Obrigado a todos. Bitoca, realmente seus avos (na nova ortografia nem sei se está certo) foram pessoas que marcaram pela amizade, educação e pela família unida. Certamente foram um dos pontos principais para que o boliche me cativasse. Mês que vem tem mais. Esta viagem no tempo, aliás, foi ótima, me sinto revigorado. abs

  5. PRIMERO QUE NADA UN SALUDO DE ALGUIEN QUE SE AFICIONO A LA PRACTICA DEL BOWLING EN EL 80.
    SOMOS CONSIENTES QUE NO LO VOLVEREMOS A DEJAR COMO COLECCIONISTA DE RECORD RESULTADOS
    E HISTORIAS ANECDOTAS EN LOS DIFERENTES EVENTOS QUE ESTUVE.
    RECORDAMOS EN ARGENTINA HACE UN AÑO ATRAS CON LOS HEMANOS
    ANDO TODAVIA ALGUNOS DE ELLOS ACTIVOS Y EL MAYOR CAMPEON SUDAMERICANO EN VENEZUELA
    RAZONES PORQUE NUESTRO DEPORTE NO HABIA EVOLUCIONADO
    EL PRIMER TORNEO GRANDE QUE ESTUVE FUE EL AMERICANO MAYORES EN BOGOTA AÑO 85
    DONDE HABIA 5 CAMPEONES MUNDIALES Y DE TODOS ESTABA JACK JUREC HOY EN LA P.B.A
    A QUIEN LE COMPRE MI PRIMER BOLA DE URETANO
    Y DE BRASIL RECUERDO EN EL MASTER A WALTER COSTA
    Y A UNO QUE ANDABA POR TODOS LADOS CON SU GUITARRA ENTNANDO CANCIONES DE AHI
    ERA USTED AGRADESERLE LA REMEMBRANSA Y LAS HISTORIAS FOTOS
    LO COLOCAMOS DESDE EL PRIMER DIA EN MIS ALBUNES DE ARCHIVO
    ATTE.
    FRANCISCO ROCABADO FERREIRA
    Email.frbowling@hotmail.com

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